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CONSUMO INFANTIL
- 18/11/2016
- Posted by: luizmarcelosimao
- Category: PARA REFLETIR
Em um cenário de Crise Econômica, a participação precoce do indivíduo na sociedade de consumo de massa coloca em risco o desenvolvimento saudável das famílias. Como Lidar com Isso?
Bastam 30 segundos para uma marca influenciar uma criança, de acordo com a Associação Dietética Norte Americana Borzekowiski Roginson e 80% da influência de compras de uma casa surge com a demanda das crianças. Dados como esses colocam em evidência o consumo infantil, fenômeno que é objeto de estudo de cientistas de diversas áreas, como a social e Direito.
Desde a indústria de brinquedos até o fast-food, tudo é utilizado pelo marketing e pela publicidade para que o consumo das crianças e dos adolescentes aumente a cada dia. Por conta disso, o consumo infantil traz pautas de discussões sobre o desenvolvimento da criança como um fenômeno preocupante, especialmente para o atual momento de crise econômica em que o País se encontra. No centro das discussões, está atividade publicitária que se dirige ao público infantil como uma das principais colaboradoras do comportamento consumista dos mais jovens.
Em seu documentário Criança, a alma do negócio, a cineasta Estela Rener, por exemplo, aborda a temática, colocando de forma crítica e reflexiva a participação precoce do indivíduo na sociedade de consumo infantil pode gerar risco no desenvolvimento saudável das crianças e nas relações familiares.
“os pais não podem ter medo de mostrar que cuidam de seus filhos, e cuidar, às vezes, é dizer ‘não’”.
(Isabela Parolin).
Vulnerabilidade
De acordo com especialistas, as crianças são vulneráveis à publicidade infantil por conta, especialmente, do fator de o ser humano ter a necessidade da aceitação e do pertencimento. O ato de consumir contribui para a inserção social dela em seus grupos sociais. Ou seja, a criança quando faz a aquisição de um brinquedo ou o consumo de um alimento fast-food busca o que é interessante para seu grupo.
Para proteger as crianças, os estudiosos do tema alertam que os pais imponham limites e ofereçam exemplo aos filhos. “Fazer a nossa parte como adultos, sem dúvida, seria um grande passo. Não obstante, essa é uma tarefa árdua hoje em dia. Quando o imperativo da sociedade do consumo é a felicidade a qualquer custo, os pais se sentem coagidos por essa ‘felicidade’ (se portam como adultos infantilizados diante de um ‘Grande-pai-que-incita-o-consumo’) e por vezes, constrangidos em não viabilizar tudo à
criança, como se esse ‘tudo’, primeiro, fosse possível, segundo, fosse o que de melhor poderiam legar”, alerta o psicólogo Rejinaldo Chiaradia.
Para o psicólogo, Mestre em Educação e uma das maiores autoridades brasileiras na teoria da modificabilidade humana, Marcos Meier, ensina a criança a consumir com consciência e responsabilidade é papel dos pais e não há como fugir dessa responsabilidade. “Eles devem educar as crianças ensinando-as o valor de cada coisa e não apenas o seu preço. Um tablet pode custar R$500,00 por exemplo. Esse é o custo, é uma quantidade em dinheiro que precisa ser “trocada” por aquele bem. Entretanto para conseguir esse montante de dinheiro, um pai das classes menos favorecidas precisa trabalhar quase um mês inteiro e isso significa muito! É esforço, dedicação, tempo fora de casa, cansaço, desgaste físico e emocional em muitos casos, etc. Portanto, o tablet vale muito! Esse é o valor do objeto, não seu custo”, orienta.
A psicopedagoga Isabel Parolin esclarece que ensinar a consumir com clareza e consciência é papel dos educadores, de modo geral, já que atualmente, a sociedade gira em trono de consumir. “ O programa de final de semana de um grande número de famílias é, por exemplo, ir ao shopping passear… E sempre rola uma comprinha ou, no mínimo, a constatação de que a pessoa está ‘precisando’ de alguma coisa, ou ainda, ela passa a desejar algo que ela nem sabia que ‘desejava’, diz.
“O que se pode fazer para melhorar essa relação é propor programas em que a família possa fazer algo junto: passear num parque, andar de bicicleta, plantar algo, fazer um bolo, um almoço especial para a família, viajar num museu, ir à praia e divertir-se. Acreditem, as pessoas podem se divertir entre elas mesmas, sem necessidade de ‘traquitanas’ para entretê-las!”, orienta. “Consumir com consciência é uma sabedoria que precisa ser desenvolvida pelos familiares” , destaca.
“Fazer a nossa parte como adultos, sem dúvida, seria um grande passo. Não obstante, essa é uma tarefa árdua hoje em dia. Quando o imperativo da sociedade do consumo é a felicidade a qualquer custo, os pais se sentem coagidos por essa ‘felicidade’ […]”.
(Rejinaldo Chiaradia)
No livro Crianças do consumo: a infância roubada (Instituto Alana), a psicóloga Susan Linn lista algumas ações que os pais podem fazer em casa para tentar amenizar os efeitos do marketing. Segundo ela, os pais e a escola podem ensinar a criança a consumir com consciência e responsabilidade, considerando a qualidade do produto e as necessidades, a fim de não desperdiçar e sim de economizar. Além disso, ela alerta para o fato do exemplo: “Quando o pai é consumista, tem grande possibilidade de ter um filho também consumista. Se o pai é econômico, planeja e investe naquilo que é fundamental, consegue passar esses valores para o filho”.
Consumo infantil x Crise econômica
O atual cenário econômico brasileiro, e pode-se dizer mundial, não é o dos mais promissores. Diante dele, muitas famílias “apertam os cintos” na questão do consumo, reduzindo os gastos e cortando despesas supérfluas. Mas será que as crianças que vivenciam o consumismo compreendem essa mudança de hábitos? Como lidar com isso? Quais fatores podem ajudar as famílias a passarem esse período sem comprometer a relação pais e filhos? Segundo Isabel Parolin, a fórmula é a conversa, o esclarecimento, a partilha. “O grupo familiar quando resolve junto as questões possíveis de serem partilhadas ganham muito mais do que a coisa em si. Produzem, também, responsabilidade, maturidade, compromisso e laços entre os familiares”, afirma.
“Vi uma cena linda, numa loja de roupas. Uma mãe acompanhada de duas meninas escolhiam vestidos. Uma delas disse: ‘Mãe, você disse que podíamos gastar XX com roupas. Posso ficar com esse, mais barato, e comprar uma sandália, também?’ A mãe afirmou que o dinheiro que elas tinham para gastar não daria para as duas coisas. A menina pensou e disse para a irmã: ‘Vamos então comprar um vestido e uma sandália? A gente vai trocando’. A mãe interferiu, afirmando: ‘Isso pode, mas vocês não vão brigar?’ Enfim, ao ouvir a conversa, tive a certeza que elas estavam acostumadas a tratarem, a combinarem e até a brigarem juntas”, relata a psicopedagoga.
Estratégia em família
Existem algumas estratégias para os pais, quando o assunto é consumir. Os especialistas recomendam, por exemplo, que diante da insistência da criança deve-se agir com firmeza, pois a criança não sabe o que é melhor para ela. Deve-se orientar a criança que, antes de gastar o dinheiro, é necessário ganhá-lo.
Vale também deixar a criança participar do dia a dia da família, indo às compras de supermercado, negociando com ela, antes de sair, quais os produtos que serão adquiridos. É importante ela saber que há um limite para tudo, inclusive, para as compras. “Os pais não podem ter medo de mostrar que cuidam de seus filhos, e cuidar, às vezes, é dizer ‘não! ’”, alerta Isabel.
“A birra, as respostas irritadas, as respostas irritadas, as caretas, os assopros são formas de demover o adulto de sua ideia. Quando o adulto volta atrás, demonstra não ter convicção. Mais tarde, esses familiares quererão que o adolescente o ouça, o considere, conte as coisas e confie neles… Claro que não terão essa recíproca. Confiar subentende um tempo em que se fia junto e fiar é viver e conviver, com tudo que essa relação provoca e sugere”, orienta a psicopedagoga.
“Você, pai ou mãe, pode estar pensando: ‘É. Concordo com tudo isso, mas é muito difícil não parecer chato para os filhos ou deixá-los deslocados em relação ao grupo’. Eu respondo: É melhor você ser chato agora e realizado depois do que ser um pai ‘legalzão’ agora e arrependido depois”, destaca Marcos Meier, que também é educador e psicólogo.
Segundo ele, é importante que os pais saibam que o filho passará pela etapa do sentimento de não ser aceito pelo grupo por não ser portador de uma marca, um produto, uma etiqueta ou um modelo novo de algum aparelho, o que fará com que ele sofra rejeição e deslocamento, e perceba que o mundo pode ser muito injusto.
“É um aprendizado muito bom para a maturidade, pois ele saberá escolher como amigos pessoas cujos valores sejam como os dele próprio. Ser é mais importante que ter. Mas somos nós que ensinamos. Não é sem dor que a gente aprende”, afirma.
“[…] Ser é mais importante que ter. Mas somos nós que ensinamos. Não é sem dor que a gente aprende”.
(Marcos Meier)
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